Atraso

E eram seis e vinte e dois e eles tinham combinado seis e meia e ele já estava se perguntando se ela iria e se ela não iria se atrasar e ela nunca se atrasa e – calma.

Calma. Ainda eram seis e vinte e três, e nas duas últimas horas o ponteiro dos minutos só tinha se mexido duas vezes, e ele conferiu o celular e o relógio do metrô, para ter certeza de que o problema não era seu relógio, e sim sua percepção dilatada do tempo. Ele tentou se concentrar no livro que tinha levado para ler no caminho, mas descobriu que era impossível. A história era boa, mas o drama dos minutos era demais para que seu cérebro se distraísse. Ele olhou para o relógio pela trigésima vez e pôde jurar, por um instante, que ele tinha andado para trás; mas eram seis e vinte e quatro e ela não tinha chegado, e a culpa era dele por ter chegado cedo, como sempre.

Ele tinha pensado em levar uma flor, achou que talvez ela fosse achar um clichê insuportável, achou que ia acabar ficando nervoso e destruir a flor sem querer, achou que valia a pena mesmo assim, mesmo se ficasse com cara de bobo, mas no fim das contas não achou uma floricultura e achou que ia se atrasar, e não levou nada.

Ele pegou o celular e olhou no espelho pra ver se estava apresentável, ficou deprimido, imaginou as pessoas do lado dele na estação rindo depois que viam que ele estava ali horas e horas esperando por uma pessoa que não chegava, levantou os olhos da tela e viu que ninguém estava nem aí, e eram seis e vinte e cinco…

Então ele fechou os olhos, tentou meditar, lembrou que não sabia meditar, amaldiçoou o tempo que passou tentando aprender a meditar achando que ia virar um Jedi, pensou em ir embora, abriu os olhos e eram seis e vinte e seis, e ele olhou para a escada rolante, pensou consigo mesmo que não aguentava mais, suspirou.

Às seis e vinte e sete, quando ela apareceu no topo da escada rolante e deu um sorriso lindo, ele esqueceu de tudo, abriu a boca pra dizer Oi ou alguma coisa que fosse, não saiu nada, e ela lhe deu um abraço e ele pensou consigo mesmo, Ela nunca se atrasa…

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Keywords

            Quando ele olha pra bagunça que ele mesmo criou (e ele fica pensando se mesmo ele é capaz de tamanha pretensão, de julgar que ele é o único ou mesmo o principal responsável pelas suas encruzilhadas, por seus passos em falso, por indecisões que na verdade são decisões, e quase sempre a pior decisão possível naqueles momentos, e ele pensa nisso enquanto colocar Radiohead pra tocar, porque essa é quase oficialmente sua música de fossa, sua música de fundo do poço, como aquela vez em que ele ouviu toda a discografia de cabo a rabo, achando quase tudo chato, mas preso naquele looping sem fim das músicas que carregavam mais lembranças, embora ele pudesse fazer uma coletânea imensa de músicas que lhe traziam lembranças, amargas ou não, mas tão vívidas que eram pinturas surrealistas; ele pensa nisso e pensa que de muitas formas o fone de ouvido que não se conecta direito, que ele tem que ficar torcendo e virando até ele pegar um contato decente e que não pode encostar de jeito nenhum sem correr o risco de ouvir só a percussão, que esse fone de ouvido que ele continua usando é uma metáfora tão boa de como ele está nesse momento que se fosse um personagem o escritor jamais escreveria sobre isso, porque seria óbvio demais), ele não sabe direito como apontar um início, e nenhuma das alternativas de solução parecem adequadas.

            Ele abriu parênteses demais na vida, e agora não sabe quais fechar primeiro, quais deixar para lá, e qual é aquele parêntese crucial que ele vai prolongar até o fim da sua vida, porque é o único que importa.

Ele imagina um amigo que foi tão importante que ele se pega pensando nele durante todos os meses de maio, e de vez em quando em meses aleatórios, em dias completamente azuis em que não tem nada que o faça lembrar dele, a não ser o contraste. E ele fica se perguntando, como se perguntou tantas vezes antes, se esse impacto, essa força que afetou toda sua vida e sem dúvida algumas vidas que ele tocou também, se essa irrealidade de um amigo que é mais forte na sua ausência, de uma relevância que ele jamais vai ser capaz de compreender, uma saudade que ele não sabe se amplificada pela dor ou misericordiosamente mitigada pelo tempo. Ele se pergunta, não pela primeira vez, ele vasculha motivos, mas sua alma egoísta e egocêntrica é incapaz de refletir essas questões sem tentar espelhá-las em si mesma; e isso é só uma parte da dificuldade em pôr um fim nisso, porque a outra parte é que ele realmente não quer fechar esses parênteses, porque tem medo de que uma das coisas mais importantes e reais que já lhe aconteceu, ainda que tenha sido (ou justamente por isso?) uma das mais tristes, eclipsando tanta coisa que ele vê friamente como mais importantes ou mais sérias.

E lhe dói, na verdade, perceber essa obsessão consigo mesmo, porque por alguns momentos, em diversos pontos na sua linha temporal, ele pensou coisas parecidas, ele pensou no Fim que Se Escolhe, na hora que se decide, e foram momentos escuros e solitários, sim, mas no fim das contas foram apenas momentos. Ele calou as vozes no momento em que elas pareciam que iam aumentar de intensidade e frequência, e nada ecoou de volta dos salões dos mortos. E no entanto ele pensa; ele pensa no fim não como uma escolha, nesse momento (porque afinal de contas cada um desses momentos tem duração subjetiva, como qualquer pessoa que já passou por crises, sustos, viagens, provas, qualquer evento significativo, pode afirmar, momentos que se estendem e momentos que se contraem, horas que passam em segundos e segundos, como no caso, que parecem uma eternidade no purgatório, como aquela maldição que deseja Que seu primeiro dia no inferno dure mil anos, e que seja o mais curto), ele pensa no fim como o acaso (o Destino, como ele pensa, em letras maiúsculas mesmo na sua cabeça, como ele tem pensado nele desde os catorze anos de idade devido a um apelido arcaico), como o Vou acordar pela manhã ou será permitido que eu fique pra sempre no Reino dos Sonhos, como eu rezei por tantos anos antes de deixar de acreditar em algo maior?, como o E se eu atravessar a rua na hora errada?, ou E se o Destino, sempre ele, disser que minha hora é amanhã?

Ele fica pensando no que o mundo vai pensar dele depois que ele for, e pensa nisso com o distanciamento de quem pensa em si mesmo do outro lado do véu, como uma outra pessoa encarando do outro lado de uma janela embaçada; ele fica pensando sem seu orgulho que o cegou durante tanto tempo e ainda faz das suas, e como sempre ele pensa pelos dedos. Ele fica imaginando a impenetrabilidade das coisas que ele guardou no disco rígido do seu computador, as coisas que ele queria poder compartilhar, as coisas que ele não quer, e as coisas para as quais ele não dá a mínima, de um jeito ou de outro. Ele pensa nas ambições que ele costurou na sua tapeçaria, ele pensa na pequenez da alma humana, no fim das contas e quando a régua do julgamento chega naquela linha marcada como TOTAL, e fica se perguntando se a soma vai ser suficiente.

Do lado de dentro, a bagunça continua, e ele pensa em muitas paisagens e cenários pelos quais ele passou, elementos extras nessa confusão, e torce para seu Destino (e pensa de levinho e com a primeira e única pitada de humor que é um pouco engraçado que ele ainda pense em Destino com D maiúsculo quando não consegue mais imaginar deus do mesmo jeito) envolva um pouco mais dessa droga que faz com que ele sinta que pode chegar a um número azul, depois de somar tudo.

(de volta a maio)

Não, eu não tenho sono. Mas hoje eu sei muito bem o porquê.

Hoje é porque, oito anos atrás, meu melhor amigo decidiu que não valia a pena.

E quantas vezes não imaginei aquela última decisão – aquele último momento de auto(des)controle? Como não poderia tentar adivinhar, mil vezes, o que se passava na impenetrabilidade daquela solidão angustiada?

Não, eu não tenho sono. Não hoje. Não quando eu penso que num instante uma vida acaba na vertiginosa ausência; não quando eu percebo que não há palavras nem floreios capazes de mascarar a crueza da realidade disforme, e que por mais adjetivos que eu busque para tentar entender o que sinto basta um que encapsula meu eu todo. Eu que não sou eu. Ele que já não é ele.

E quantas vezes não me peguei pensando que, talvez, talvez, se olhasse como estou (como estamos todos que foram deixados), ele não se arrependeria nem um pouco…

Não, eu não tenho sono.

Fuga

As palavras não saem de mim aos borbotões, mas saem da mesma forma, encontram algum tipo de sentido no vácuo de onde escrevo. A tela em branco não me limita, não me assusta. Eu já sei o que é o medo e, embora parte do medo seja o medo de não escrever, já não me constrange nem me impede.

O que me dá medo é falhar, mas preciso redefinir o que entendo por falha. Falhar não é não ter sucesso, não é ser dependente, embora eu queira ser maior que isso, sem dúvida. Falhar é olhar pra trás e se sentir insatisfeito, é se arrepender de não ter vivido. É perceber que o que te define é algo que não te traz identificação.

Meu problema é a esquizofrenia de não saber o que quero, ou, por outra, saber que quero os contraditórios. Eu quero a vida simples, o mundano, mas eu quero o glamour e o conforto, às vezes. Eu quero reconhecimento e fama, mas eu quero o caseiro e o pequeno. Eu quero a solidão e eu quero a companhia. Eu quero ter as minhas vontades satisfeitas, mas eu quero ser menos egoísta.

Penso se não tem algo a ver com a pressão do moderno e com todas as aspirações que são simplesmente produtos, coisas que temos que adquirir para sermos felizes e que são apenas invenções de alguém: um carro, um emprego com reconhecimento, fetiches que nos são impostos.

O caso é que perdi parte da minha capacidade de concentração e de exposição, boa parte da minha capacidade de argumentação e muito da minha capacidade de dissertação. A criação me abandonou quase que por completo. Preciso de alguma forma desintoxicar, e por isso vou meditar, me desconectar do que não me pertence, e deixar de pertencer aos meus objetos.

Quem sabe eu não aprenda uma coisa ou outra?

[o drama é a rotina, pt. 1]

Alguma coisa quebrou dentro dele, e ele ainda não sabe direito o que é. A cada vez que ele olha pra folha em branco e tenta lembrar o que ele queria escrever e mandar pra alguém que é uma memória se desfazendo como um sonho quando se acaba de acordar, uma parte dele morre um pouco mais, um pedaço do que ele foi e que nunca mais vai ser.

De Porto Alegre a Salvador, do Pacífico ao Atlântico, em viagens imaginadas, fantasias de liberdade na América do Sul. Ele encara o espelho e o espelho o encara de volta, e a imagem destruída que as manchas de mofo deixam entrever parece julgá-lo; O desperdício, o desperdício! Ele não sabe se imagina ou se ouve a voz que não vem de dentro dele, que ecoa no vazio do seu peito, com esse frio que não traz nenhuma lembrança boa quando gela seu intestino, e ele se agita no meio do sono acordado. O espelho não tem nenhuma piedade quando mostra aquelas olheiras que já são parte da sua personalidade, o cabelo comprido demais que ele não tem mais ânimo de cortar, a barba que ele queria ter se adivinhando nas suas falhas, o ar de eterno cansaço, e, de novo, o desperdício.

Uma vida inteira sendo desperdiçada, ele pensa, vivendo nos cantos da eterna promessa de ser alguma coisa, e nas madrugadas insones, pensando no arrastar do trabalho do dia seguinte que emenda no dia anterior, naquele incessante vaivém dos dias repetidos, de uma existência sem quebras, sem pausas, sem descanso. Vício por vício, ele sente que seus dias são numerados como cigarros em um maço, e que ele está emendando um no outro e esperando que consiga aproveitar um pouco daquela chama em algum momento que ele não sabe quando vai vir, e ele vê a repetição, e de repente ele se dá conta de que já pensou nisso muitas vezes, inclusive em frente a essa mesma folha branca na qual ele parou, sem ter começado. Uma vida inteira, ele pensa, e mesmo antes do começo ele já sabe que o final não é feliz, e isso, que deveria entristecê-lo, falha em causar qualquer coisa, porque a rotina o deixou dormente, porque ele ficou muito tempo sentado em cima de sua alma.

De certa forma, ele pensa, o drama de existir todos os dias, acordar sem perspectivas de melhorar de vida, dormir exausto por não ter vivido, beber para esquecer a ausência de lembranças, a repetição mecânica de sua existência torna tudo mais suportável, e quando em breves instantes de lucidez alguma coisa que ainda não morreu tenta quebrar esse ciclo e fugir, seu mecanismo de sobrevivência interfere e ele continua olhando pra frente, sem enxergar nenhuma luz, mas olhando pra frente ainda assim.

No começo, quando ele ia pro trabalho, depois que passou a vontade de se dar bem e ter sucesso, mas ainda assim bem no começo, porque a novidade acabou rápido, ele parava no meio do expediente por alguns instantes e sentia nitidamente uma lâmina no meio do seu abdômen, perfurando alguns órgãos vitais impiedosamente, e a dor era tal que ele sentia que mesmo que ele morresse continuaria agonizando. Depois piorou; ele não sentia mais nada.

Mas alguma coisa quebrou dentro dele, disso ele tem certeza. Os breves instantes de lucidez, portanto, e então o mergulho de novo dentro da escuridão. E a sensação de que, de lá, nada olha de volta.

Espaços

O que me surpreende nos espaços – talvez não surpreender, porque racionalmente a surpresa é impossível, mas continua me impressionando – é como eles são paradoxalmente carregados de significado, como eles dizem muito mais do que uma infinidade de palavras mal costuradas.
Duas datas, separadas por um traço; é verdade, a vida são esses traços entre o seu nascimento e sua morte, mas o que me fascina são esses espaços entre os traços e as datas. Porque uma verdade ainda mais cruel é que muitas vidas são avaliadas pela morte que as encerra, e o significado de tudo que passamos é posto em perspectiva pela forma como seu corpo (ou a ausência dele – de novo, mais significativa que a sua presença) vai parar na sua morada final. Um momento final de descuido, ou de ‘fraqueza’, de egoísmo, ou, pior ainda, de heroísmo, que acaba justificando uma existência medíocre, ou um ato hediondo causado por um desequilíbrio químico momentâneo que condena uma vida excepcional.
Como julgar alguém que acordou depois de dias (ou semanas, ou meses, ou anos) sofrendo sem compartilhar nada com ninguém e decidiu que aquele era o limite dele? Como entender, estando de fora, ou explicar, estando de dentro? Como evitar se martirizar por não ter percebido os sinais, como deixar de pensar que poderia ter sido diferente, que dava pra fazer alguma coisa?
É tudo um exercício em futilidade, claro, o que está escrito não pode ser apagado. Mas parece que aquele traço entre as datas é algo que pode ser discutido, compreendido, assimilado, referenciado, etiquetado e arquivado; o espaço seguinte, por mais que uma parte da sua razão teime em querer processar, é só mais uma coisa que vai manter todos que tiveram contato em algum grau mais profundo acordados à noite de vez em quando, alternando momentos de piedade com raiva e egoísmo, e as feridas, se cicatrizarem, vão latejar de vez em quando.
O espaço entre uma fala ou outra, uma linha de diálogo ou de pensamento, talvez indique um momento de reflexão fundamental, ou uma mudança radical, ou aquela pausa em que se olha pra dentro de si, e o vazio encara de volta com aqueles olhos opacos e vidrados de viciado. Se a maior parte do universo é composta por espaços, é apenas natural que sejam os espaços os maiores responsáveis pelas dores do mundo. Quando dizemos o que basta a um bom entendedor, é nos espaços que nos comunicamos.
E se essas ondas telepáticas que transmitimos através dos nossos eixos de loucura não forem o suficiente para nos fazermos entender, talvez a ausência crie significados que nunca nem pretendemos sugerir.

No reino

E o que ele precisava era daquele vento que só sopra de madrugada, que tem mil nomes dependendo de a parte do mundo em que você está, mas que na cabeça dele só soprava com um som, o mesmo nome e a mesma sensação não importava de que direção ele viesse.
Então no princípio era o som e a sensação que sobrou do uísque com gelo que ele tinha tomado, e ele, de olhos fechados, abriu os braços e abarcou toda aquela realidade aumentada que ele intuía, aqueles cheiros que vinham pra ele através da imensidão da noite insone, a noite que ele tinha abandonado mas que nunca tinha deixado de buscá-lo, e à medida que o repouso deixava de ser uma possibilidade pra ele, cada vez mais ele sentia o impulso de sair para o nada, a vontade insistente da queda livre, de deixar a corrente de ar levá-lo para algum lugar outro…
E ele abriu os olhos e começou a construir nas brechas da realidade, e ele ouvia o mar batendo em rochas pré-históricas, e pensou em um livro que ele tinha comprado e nunca tinha lido, e de repente a urgência esvaziou, uma urgência que não era mais que um vestígio de uma etapa ultrapassada do seu processo de evolução, que ele podia jurar que tinha ficado pra trás quando ele voltou de viagem, ele tinha certeza de que tinha entendido tudo mas não tinha entendido nada.
Escadarias começaram a se construir, mas elas não levavam a lugar nenhum, porque o lugar que ele estava buscando ficava pra frente, não pra cima, nem pra baixo. Ele podia ver alguma coisa bem longe, que não fazia sentido nenhum. Era pra frente; e pra frente, ele prometeu a si mesmo, era a única direção que ele iria, daqui por diante. E ele construiu um castelo no meio daquele deserto, porque pra ele fazia sentido que um castelo ficasse marcando o lugar de onde ele tinha começado, e ele se imaginou no topo do castelo, e olhou e viu que, onde o mar alcançava a beira do mundo, um farol iluminava tudo e dava a volta e iluminava de novo. Então ele começou a andar em direção ao farol, e decidiu que só ia se preocupar com o que faria depois quando chegasse lá.
Ele fez questão de andar bem devagar.

Carta pra um amigo que partiu

     Tem muita coisa que eu queria te contar, e que por algum motivo você resolveu não ver.

     Já se foram cinco anos. Todos nós, hoje, já terminamos a escola; até o Caio, olha só! Acho que quase todo mundo está na faculdade, e eu estou quase saindo. Cinco anos é bastante tempo.

     Mas também é pouco. Parece que foi ontem, e que estávamos andando pelo caminho de pedras coberto de flores que ia da entrada até a rampa. Parece que eu consigo ver e ouvir você tocando violão, e você ainda estava só aprendendo, e mesmo assim estava lá mostrando pra mim um Lou Reed que eu jamais conheceri, nem teria tido paciência pra ouvir.

     Saiu um CD do Radiohead, e eu lembrei de você. O Musictopia nunca mais lançou nada, e eu fiquei pensando se você saberia o porquê, se você ainda estivesse aqui. One Piece ainda não terminou.

     A indie gorda está na mesma faculdade que eu!, e eu queria tanto te falar isso. Queria saber se você se arrependia de não ter nunca ido falar com ela, e se te incomodava que ela nem soubesse quem você era.

     Um filme, um filme do On The Road! E nós que nunca pegamos a estrada juntos, sequer pra ir pra praia ou pra Bragança Paulista. Retas com começo e fim, pedaços de vidas capturadas em instantes fotográficos e em memórias que se dissolvem.

     Mas eu lembro; eu lembro de nós três rindo juntos de alguma bobagem, lembro de você ter experimentado vinho e gostado, lembro de termos querido fazer uma banda juntos, e do logo que a Milla fez, e às vezes parece que isso tudo foi um sonho, e eu tenho que olhar nas fotos, pra me certificar que não foi uma coisa passageira que se foi desmanchando aos poucos, como as amizades frágeis que se desfizeram nesses cinco longos curtos anos, dos romances desatados, e até dos ciúmes que não fazem mais sentido, porque num repente você saiu para a tarde fria de um maio desolador e já quase no fim, e na maior velocidade possível enfrentou o mundo, e o mundo reagiu, e na sua queda livre ficaram pra trás lembranças, esperanças, sonhos, uma tênue amizade construída com paciência e implodida num baque súbito, e me sobraria apenas a tentativa de pintar com palavras um quadro de um instante de duas vidas que se interseccionavam, como melodias tocadas ao mesmo tempo em lados opostos do mundo.

Idade Moderna

Não a Idade Moderna histórica, a Idade Moderna significando os dias de hoje.

Autopiedade e autoconfiança são uma combinação perigosa. Minha mudança de humor foi grande? Foi. Eu podia achar que meu problema é bipolaridade. Que minhas mudanças de humor são bruscas e inesperadas, e achar que o que eu tenho é um problema – químico, diga-se -, mas que pode ser tratado.

Mas a verdade é que não é nada tão brusco assim. Meu problema é o mesmo, só que diferente. Minhas mudanças tem um padrão claro, são ligadas a certas ausências, e por isso mesmo tem uma solução fácil.

Eu senti o impulso de fazer algo da vida, e isso sempre me deprime, pesa.

Mas eu vou levantar a cabeça e continuar, porque, afinal de contas, que mais eu posso fazer?

Percepções

É engraçado como não basta ser. Eu sei o tamanho desse clichê, mas as coisas que são lugar-comum sempre começam a ser porque se aplicam a muitas pessoas, em diferentes lugares e tempos.

Exteriormente, situações se parecem; um rapaz que namora uma garota é sempre igual, aparentemente, independentemente da garota, mas isso é falso. Ninguém percebe as sutis diferenças no tratamento, o respeito imenso e a admiração que não cabe numa folha de papel, o carinho escondido que ele dedica a uma pessoa que, enfim, ele confia completamente, em todos os níveis.

As pessoas notam o brilho diferente nos olhos, mas por algum motivo não percebem que ele não se fere, ele não se reprime. É tão importante poder ser quem realmente se é que tomamos isso como algo normal, mas é a coisa mais rara do mundo. Ser capaz de gritar para os quatro ventos seu amor, não só seu amor que quase completa uma volta ao redor do Sol, mas seu amor por tudo, por todas as coisas, seus desejos e vontades. Ninguém percebe a diferença da tangibilidade dos sonhos, da composição dedicada dos passos, do planejamento meticuloso do futuro que ainda permite o improviso, essa que é a arma mais forte de todos os relacionamentos, a espontaneidade.

É tão diferente que só a inevitável comparação interna com tudo que veio antes pode expressar, e é tão importante que tem que ser escrito e registrado, na frágil eternidade dos bits e bytes.

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