É tudo como um sonho. Como se eu flutuasse por entre o concreto sujo dessa cidade, à parte do mundo, devendo sempre, nunca quite com minha própria solidez, minha presença mundana indelével.
Sou um desenho vivo, alguém nas entranhas doentes de uma opressão, parte de um jogo viciado, e as montanhas de arranha-céus que se desenham na paisagem são um lembrete constante da minha própria natureza falha.
Ou como Heloísa, que entrou no banco, roubou uma arma e não levou dinheiro nenhum. Heloísa, como um filme, atravessando desarmada a porta giratória e encarando aquelas pessoas imersas no Drama e querendo de alguma forma o que? Se vingar? Libertá-las? Fazer um protesto? Heloísa e o guarda distraído, e nesse momento, apesar de ela estar mais insana que nunca, seu cabelo está arrumado e ela parece mais normal do que eu jamais a vi, provando de uma vez por todas que as aparências não enganam, elas propositadamente nos confundem. Heloísa pega o guarda completamente de surpresa, atira nele com sua própria arma, pega a munição extra do seu cinto, e nesse momento todos os rostos da agência se voltam pra ela, não sei exatamente quantos estão ali mas ela mata um por um, começando pelos outros guardas, claro, exterminando os clientes sem um único pingo de consciência e avançando para os caixas, que não estão de forma alguma preparados pra esse tipo de loucura, a loucura dos que vivem sem ninguém, dos que não tem meta nem nada, e suplicam que ela leve tudo, todo seu dinheiro, e é nesse momento, porque afinal era isso que ela estava esperando, que ela dá uma gargalhada lunática e instintivamente eles sabem, eles conhecem esse tipo de absurdo agora, mesmo sem terem encontrado antes, dentro de seus corpos eles percebem que não existe como negociar, ela os matará sem piedade e é isso que ela faz, sorrindo, e sai da agência, e não foi pega, essa é a verdade.
Ironicamente, quando mais tarde a polícia a levou, foi por uma coisa completamente diferente, embora com a mesma arma que ela havia levado do segurança assassinado, quando três horas e trinta e sete minutos depois do massacre do banco ela entrou no meu apartamento pela janela, que nessa época eu morava no primeiro andar, me contou minuciosamente o que tinha feito e deu a mesmíssima gargalhada que amedrontara os funcionários do banco três horas e cinquenta e dois minutos antes, mas percebi com mais rapidez do que os bancários que ela estava insana, já que, diferente deles, eu conhecia e muito bem essa loucura, e reagia rápido mas não o bastante, e ela atirou na minha perna antes que eu pudesse tirar a arma dela, e quando o fiz e consegui segurá-la e a polícia apareceu quase instantaneamente, para levá-la e trancá-la pra sempre, ela me deu um último sorriso, invocando uma doçura que nunca existiu entre nós, e foi a última vez que eu a vi.
(um pedaço de Cáon)
donacapitu disse,
12 12UTC janeiro 12UTC 2012 às 02:00
interessante…
Camila disse,
16 16UTC janeiro 16UTC 2012 às 21:20
Segunda-feira, né.