Ele bateu a porta com força e ela fez “BLAM!”; ele já tinha feito isso muitas vezes, mas nunca em inglês. Suas mãos estavam vermelhas e trêmulas, sua respiração errática. Seu nervosismo era quase sólido.
Do outro lado da rua, o Vigia adivinhava um drama, e sua imaginação o desenhava com todas suas cores. Ele, do lado de dentro, consciente de estar sendo objeto e não sujeito, lutava contra sua fraqueza humana, e na raiva da descoberta procedia a quebrar metade da sua sala. O Vigia, do lado de fora, via com os olhos da mente os sons da televisão explodindo na parede, do rádio desligado dando um último acorde, dos urros irracionais de um humano enjaulado em uma cela de vidro.
Ele parou por puro cansaço, depois de ter avançado na destruição sistemática de uma televisão, um rádio, duas cadeiras, o tampo de vidro da mesa, um aquário vazio e um velho e desfigurado boneco do He-Man. O despejo de sua fúria dava tempo pra pensar. As respostas nem sempre são melhores que a ignorância, ele pensou, e saber que temos um propósito não é nada confortante quando o propósito é esse.
Mas então ele pensou, voltando ao seu estado normal de homem e não de fera, se o mundo é isso, então por que alguém me contaria? E o Vigia via, do outro lado da rua, as perguntas do silêncio, com sua expressão inalterável, sua passividade aparente; e adivinhava o eco da quietude, ainda que mais cedo do que o esperado, que significava o reconhecimento. E ele, lá dentro, enquanto ainda segurava o relógio na mão direita levantada, concluiu que isso era um teste de reação, como tinham concluído os outros dezessete; o propósito era apenas saber como ele reagiria com esse tipo de conhecimento, um elaborado labirinto com um queijo no fim.
E o Vigia se preparou para terminar o experimento, anotando em seu computador o tempo de reação consideravelmente menor. Sua languidez disfarçava seus ágeis movimentos enquanto ele dava longos e demorados passos, e do outro lado da porta ele continuava pensando, enquanto abaixava o relógio e se sentava na única cadeira intacta da sala. E se ele estivesse louco..?
Então o Vigia sumiu, e ele nunca mais pensou a respeito.