Viagem pelas terras nevadas

Ricardo morreu no meio de tudo.

Homens não são como os personagens de estórias, que morrem na hora certa e podem não mudar nada. Humanos morrem no meio, deixando coisas por acabar, conversas por se ter, amores por começar. A morte mexe com os homens que sobrevivem, independente de quem seja.

Ricardo deixou livros com marca-páginas, assuntos não terminados. Um apartamento repleto de lembranças que desapareceram como letras em um papel molhado, ou permanecem, mas alteradas pela saudade dos que se consolam abraçados. Discos que ele não vai mais ouvir, filmes que ele nunca vai rever, estórias que ninguém mais lhe contará. Uma pessoa que se vai não deixa nada pra trás, exceto sua ausência.

Os amigos mais imaginativos reconstroem a cena, o súbito de uma decisão secreta; quem dirá quanto refletida? Nenhuma discussão, nunca, ou um pedido de ajuda – mas com que direito, também, poderia qualquer um de nós exigir isso? O que há de mais íntimo que a escolha da morte?

Então a decisão final. Passos lentos? Firmes? O apoiar dos pés na sacada: o último momento. Dúvida? Pressa? E afinal ele se lança para o nada. Euforia? Arrependimento? Ninguém saberá jamais. Nada mais resta, nem marca, nem som, nem nada.

Resta uma lembrança com gosto de anis, restam perguntas irrespondíveis feitas a um ser cujo nome se apaga no granito frágil do esquecimento. Resta um vazio, a ausência sem explicação.

1 Comentário

  1. Stela disse,

    9 09UTC maio 09UTC 2011 às 12:24

    Gostei muito.


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