Meu amor pela minha cidade é trágico, byroniano. Eu sou apaixonado pela cidade do Caos, pela metrópole da Desigualdade, dama translúcida dos relâmpagos de informações supérfluas. Seu rosto vampírico-fantasmagórico me persegue em sonhos acordados, me revolta em devaneios retóricos. São Paulo é a união de mil povos e essa pluralidade de culturas e espectros confunde um paulistano como eu, preso na liberdade da falta de uma identidade clara.
O Rio de Janeiro já foi um símbolo do Brasil: a cultura da malandragem associada a um povo inteiro – exagerada, claro; o samba de raiz, o futebol-arte, as praias belíssimas, o verde, o riso, a pele queimada de sol, uma mistura única de África, América e Europa que, na verdade, é a melhor explicação de “brasilidade”. A capital política do Império tornado República se embrenhou no meio do mato, no Planalto Central, mas por muitos anos ainda a cultura brasileira se baseou no Rio, e a imagem internacional – e, pra que mentir, a imagem nacional, também – sempre foi daquela festa eterna da cultura litorânea do Rio de Janeiro.
Ainda assim… Nos interiores, o Brasil se transforma. A maior economia da América do Sul ainda gira no núcleo sudeste do país, e o centro só pode ser São Paulo. O ritmo frenético, o largo passo paulistano, a carga de ser a cidade-irmã da insone metrópole do Norte impuseram à cidade de São Paulo o rótulo de túmulo do samba, terra de engravatados e indústrias de funcionários-robôs; sua mistura de gentes, gostos e culturas parecem lhe furtar de uma identidade, mas é ao contrário: sua mistura é sua própria identidade, e São Paulo funciona como síntese de um país gigante, vibrante, modernizante, cheio de problemas mas tentando seguir em frente.
Quem vive em São Paulo conhece os problemas sem fim de uma cidade crescendo rápido demais, de engarrafamentos, de inundações, de tumulto, de lotação, de poluição, mas São Paulo é muito mais que isso, mesmo quando se olha com realismo e não idealismo. Estar apaixonado não me impede de reconhecer seus defeitos, só me faz lembrar o que existe para além, nas noites sem sombra em que não existe fim para a peregrinação em bares e ruas e encantos e medos, na emoção do hino nacional às seis da manhã numa Marginal Tietê onde o sol só ameaça nascer, na sexta-feira que termina no domingo, nos cantos desconhecidos que nem os ônibus alcançam, nas voltas do metrô da meia-noite que bate duas vezes, na cultura de orquestras sinfônicas misturadas com as batidas do hip-hop, os ritmos importados, os pratos importados, os carros importados, uma melodia desenfreada e indomável, que ressoa por túneis superfaturados e em becos dos anos 20. E além, e além, sua mistura irreproduzível de sotaques, línguas, gostos, a cultura da (i)migração; São Paulo, a cidade que é tão misturada que sua dedicatória musical mais famosa foi feita por um baiano.
São Paulo: eu te canto na minha prosa rude, no português trabalhado mas torto no ritmo, que é o som que fazem tuas vias avenidas, o som do subúrbio alcançando o centro a 90 por hora e freando bruscamente, a ignorância letrada e a cultura cara, a imagem de um Brasil preso entre o ser moderno e não ser, entre alcançar o seu destino não escrito e se acomodar na complacência de quem já conquistou muito e tem medo de perder ao buscar mais. São Paulo, capital, capitã de um navio que decola, rumo a mares nunca de antes navegados. São Paulo que me encanta, São Paulo que me enfurece, São Paulo, enfim.